14/02/2009

El Oued é assim...




Welcome to Saara ...
Durante os últimos meses foi-se falando tantas vezes que perdi a conta. Falou-se sobre tantas coisas relacionadas, que começa a ser normal estar e viver em El Oued, no deserto do Saara. Mas não. Convém focar que estamos a falar num país cujo regime democrático não é aceite por todos. Convém não esquecer que estou o terceiro mundo, que voltei 100 anos para trás no que respeita ao desenvolvimento, ou que ainda há bem pouco tempo, o Grupo Islamico Armado (GIA) – que em tempos ano passado enviava os melhores guerrilheiros para o Iraque para lutarem ao da Al Qaeda, degolava vilas e aldeias inteiras aqui bem perto, simplesmente por não serem ou não respeitarem o Corão.

É a terceira vez que venho a El Oued, cidade no deserto do Saara que significa rio, que já existiu, mas que secou, e continuo surpreendido. Tudo é pó, areia e castanho. O regime, a cultura e as regras são claramente muçulmanas e eu tenho que praticamente viver como eles. O governo proibiu a semana passada a venda de qualquer bebida alcoólica. As pessoas rezam às diferentes horas, descalças e depois de lavarem as mãos e os pés, as mulheres estão tapadas e não saem de casa, e só se vêm homens nos cafés, se é que se pode chamar aquelas barracas de contraplacado, cafés. Nesta altura do ano, inverno, está frio, pelo que toda a gente está ainda mais tapada que o habitual. Eles usam umas túnicas castanhas cumpridas até aos pés, com carapuço da mesma côr, e elas normalmente de cor claras. Parecem tumultos que se passeiam pela rua, como zombies, como fantasmas todos vestidos de igual, ou como qualquer animal rastejante que se disfarça da mesma cor que o envolvente, neste caso, castanho. São normalemnte sujos. Uns dormem com o gado para se aquecerem, outros passam o resto do dia no chão de terra. A maior parte está desempregada. Como não há água normalmente, não tomam banho. Têm um odor insuportável que me deixa a pensar como será no verão com os 45ºC de temperatura média diária.




Aqui não vivem alienados pelos o que os outros possam pensar sobre que trazem vestidos, o aspecto do seu cabelo ou a marca das sapatilhas. São todos iguais, mas importam-se com o que é “importado”. Não sabem o que a metrosexualidade, conceito que nasceu na sociedade consumista à qual eu pertenço, me orgulho e tenho saudade. As pessoas vivem à maneira deles, são felizes assim, mas não deixam de ter o sonho de poder um dia saber o que é a sociedade que se preocupa com essas futilidades.




No Verão a cidade fica sem água durante o dia e não se consegue tomar banho à noite devido às temperaturas elevadas que a água atinge. É estranho, mas quando há água, ela escalda.
A rua central de Guemmar, cidade vizinha, tem uma relva que separa os dois sentidos da estrada. Nessa relva, a que nós demos o nome de “rua dos panascas”, é onde eles passam a vida deitados. Só homens, claro. É extremamente usual as pessoas estarem no chão. Acordam, e vão para o chão, normalmente descalços. Sentam-se no chão, deitam-se no pó como se fosse uma esplanada. Quando anoitece fazem o mesmo mas com uma fogueira para se aquecerem. Mulheres, nem vê-las. Só os olhos! Nesta cidade há uma pequena mesquita, como qualquer outra espalhada pela Argélia, mas esta com uma particularidade. Foi aqui que se fez a maior parte dos recrutamentos de jovens para os atentados suicidas no Iraque, deixando o nome desta cidade associado ao terrorismo.

Gostava de saber escrever, ou melhor, descrever, o que vou vendo por estes lados. Há coisas que se entende, outras que com uma fotografia se tem uma ideia, mas outras, a maior parte, como certos cheiros, paisagens, o dia-a-dia, sabores ou retratos daqueles que me proíbem de fotografar ou filmar, ficarão só para mim, e que inevitavelmente, se perderá na minha memória.

Vou para o terceiro mundo, (ou quarto!) e não sei bem porque o faço. Penso que se não o fizesse, não sabia porque é que não o tinha feito. Simplesmente vou atraído pelo desconhecido, aventura e desafio profissional, magnetizado pela decisão que se acha mais acertada.

Saha!

2 comentários:

  1. Querido Sobrinho,
    Magnetizados ficamos todos ao ler o detalhe da tua visão desse canto tão inóspito e desconhecido... Ai credo, todos no chão ??? comem com as mãos??? Cheiretes??? O que aprendemos com a descrição das tuas saídas !!
    Coragem, muita coragem, !! Muitas saudades dos Tios, um abraço do Julião, e continua a dar-nos essas belas páginas escritas, que acredito, serão um dia valiosas !!

    Tia Teresa

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  2. Querido Sobrinho,
    Magnetizados ficamos todos ao ler o detalhe da tua visão desse canto tão inóspito e desconhecido... Ai credo, todos no chão ??? comem com as mãos??? Cheiretes??? O que aprendemos com a descrição das tuas saídas !!
    Coragem, muita coragem, !! Muitas saudades dos Tios, um abraço do Julião, e continua a dar-nos essas belas páginas escritas, que acredito, serão um dia valiosas !!

    Tia Teresa

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