Em Outubro faz um ano que visitei pela primeira vez esta zona. Nessa altura, o choque cultural enevoava as minhas tentativas de descrições. Irritado, criticava e lamentava sustentado no cepticismo que circulava no meu sangue. Agora habituei-me e vivo a rotina de uma civilização com um contraste abismal da nossa, contemplo as paisagens enigmáticas e radiosas que me rodeiam, os hábitos das pessoas, e absorvo de maneira diferente.. Tento escrever aquilo que sinto. E sinto que sou das poucas pessoas que posso falar sobre esta cultura conservadora muçulmana pautada pela temperatura, abarcada no deserto do Sahara, e iluminada pelo incansável Sol que insiste em ser cada vez forte. Já tentei descrever a imensidão do silêncio do deserto, o frenesim das Sextas-feiras santas no mercado do centro, mas acreditem, é difícil
Acho que escrevo (ou melhor, tento) porque gostava de poder transmitir o que se sente no deserto. É nada. É vazio. É absoluto. É imponente. Sei lá! Não consigo. Talvez mágico? Escrevo porque gostava de contar que, apesar das dificuldades, sinto-me um sortudo por ter o privilégio de ver o nascer do sol atrás de gigantes dunas do Sahara no dias mais claros. Escrevo porque tenho a necessidade de partilhar a magia do silêncio sepulcral dos meandros do deserto acompanhado das milhares de estrelas que brilham no céu que raramente tem nuvens. É grande e fascinante. Entendo porque me dizem que quem conhece o deserto do Sahara, nunca mais volta a ser o mesmo. Entendo estas frases feitas agora.
O trabalho e as dificuldades do dia-a-dia fazem-me por vezes esquecer o que está à minha volta. É preciso que me lembrem de vez em quando que tenho a sorte de presenciar estas coisas.
Aconteça o que acontecer, esta estadia está a mudar a minha vida, fez-me crescer e entender que a tolerância, o equilíbrio ou a serenidade são conceitos importantes. Fez-me perceber que o fim temporada é o inicio de uma outra. Fez-me perceber que preciso de conhecer o resto do mundo e conhecer novos valores para evoluir como pessoa.
Estamos em Agosto a poucos dia do Ramadão. A vida começa às 05.00h. Pela rua, pelos cafés, nas padarias, tudo está aberto. A rotina de um mais um dia destas pessoas já se sente quando no resto do mundo só se pensa em dormir. O Sol nasce e a temperatura triplica. Normalmente chega passa dos 46ºC e nos dias piores estão 50ºC. Tudo fecha às 10.00h, quando tudo está a abrir em Portugal. Voltam a abrir às 18.00h, quando o sol se começa a pôr e tudo está a fechar em Portugal.
Por mais que tente escrever o que é este local, não consigo. Não tenho habilidade para tal, mas a humildade suficiente para o admitir. Sou novo. Precisamos de crescer. É preciso que me lembrem e já agora, me expliquem, como é que se pode descrever o que vem para além do nada?